O Contexto Macro: SPFW 30 Anos e a Edição N60
A edição N60 da São Paulo Fashion Week (SPFW) transcendeu o formato usual de uma simples temporada de moda, consolidando-se como um marco de celebração e redefinição para a indústria brasileira. Esta edição, cuja nomenclatura “N60” indica ser a sexagésima temporada do evento, coincidiu com o aniversário de 30 anos da plataforma, firmando seu status como a mais duradoura e completa do setor nas Américas. O momento de celebrar três décadas exigiu uma retrospectiva profunda, buscando validar o legado cultural da moda nacional e projetar seu futuro.

A escolha de Ronaldo Fraga para encerrar a noite de abertura do evento, em 13 de outubro, inseriu-se diretamente nesta estratégia curatorial. O fato de um dos estilistas mais engajados socialmente e focado na valorização do artesanato brasileiro ter retornado especificamente na edição de aniversário reforça a percepção de que a SPFW procurava reafirmar as raízes culturais e a profundidade narrativa do país no cenário da moda, em contraponto à aceleração e despersonalização frequentemente observadas no mercado global. O desfile de Fraga, portanto, funcionou como um poderoso manifesto sobre a maturidade da moda brasileira, capaz de valorizar a memória e a economia criativa local.
O Retorno de um Cronista: A Reavaliação Pós-Pandemia
A apresentação de Ronaldo Fraga na SPFW N60 foi notável por marcar seu retorno aos eventos presenciais após um significativo hiato de seis anos. Este afastamento das passarelas convencionais não representou inatividade, mas sim um período de reavaliação filosófica e pesquisa antropológica ativa sobre o papel da moda.
Durante os anos que antecederam a N60, Fraga, que é conhecido por transformar passarelas em palcos, passou por uma fase de repensar o formato tradicional dos desfiles. Ele expressou que as apresentações convencionais pareciam “apertadas e solitárias”, distantes da vivência cultural e da conexão humana que desejava transmitir.

Como metodologia de trabalho, o estilista embarcou em expedições extensas pelo Brasil, abrangendo regiões do Pará a Pernambuco e da divisa do Rio Grande do Sul com a Argentina, tudo com o objetivo de buscar histórias, tradições e inspiração genuína para suas coleções.
Este hiato serviu, assim, como uma metodologia de pesquisa antropológica. As expedições e as parcerias desenvolvidas com artesãs mineiras, como a Casa Bordada em Barra Longa e a Crochetai-vos em Barão de Cocais, tornaram-se a causa direta da riqueza conceitual da coleção Minas-Nascimento. O desfile da N60 representou o efeito desta nova abordagem, na qual a moda se estabelece como documentação viva da cultura popular e um veículo de fortalecimento comunitário.

A crítica de Fraga ao desfile tradicional como “solitário” revela um profundo desejo de descentralizar o protagonismo do estilista para, em vez disso, focar na narrativa e na comunidade. Isso preparou o terreno para a concepção de um desfile que se assemelhou mais a uma procissão ou celebração performática do que a uma simples exibição de roupas.
A N60 como Palco de Narrativas Compartilhadas
A edição N60 foi definida pela curadoria de experiências que procuravam unir moda, música e cultura, indo além dos espaços convencionais. Outros grandes nomes da moda brasileira também participaram dessa tendência de descentralização, com João Pimenta desfilando na Biblioteca Mário de Andrade e Gloria Coelho apresentando sua coleção nos vagões da CPTM.
O uso de locais simbólicos, como uma biblioteca, um meio de transporte e, no caso de Fraga, o Museu da Língua Portuguesa, sugere uma tendência estrutural na SPFW de abandonar a passarela centralizada em favor de locações que adicionam significado narrativo à apresentação.

A moda torna-se, assim, uma experiência imersiva e locacional. O desfile de Ronaldo Fraga, realizado à noite e culminando o primeiro dia da N60, recebeu um peso simbólico de abertura, estabelecendo o tom cultural e emocional para toda a semana e reforçando a ideia de que a moda brasileira é, acima de tudo, uma narrativa complexa e engajada.
Concepção da Coleção “Minas-Nascimento”
A coleção apresentada por Ronaldo Fraga na SPFW N60, batizada de Minas-Nascimento, foi um profundo estudo de intersecção entre arte, biografia e vestuário.
Figurino
A inspiração central para a coleção foi o músico Milton Nascimento. O projeto criativo começou a germinar após Fraga produzir o figurino para a turnê de despedida de Milton, A Última Sessão de Músicas, em 2022.

A criação daquele figurino serviu como uma espécie de proto-coleção, estabelecendo um diálogo íntimo entre o estilista e o artista. Assim, o desfile da N60 não se configurou como um tributo externo e passageiro, mas como a continuação de um trabalho de profunda admiração e estudo biográfico, elevando a coleção ao status de documentário visual.
Quatro meses antes da apresentação, Milton Nascimento concedeu sua bênção para que sua vida e obra servissem de base para a coleção. Esse consentimento conferiu legitimidade cultural ao projeto, transformando o estilista em um guardião da memória e da obra de um ícone nacional através do veículo da moda.
Semiótica de Minas Gerais: Geografia Afetiva
A coleção celebrou um “Brasil profundo, poético e cheio de raízes”, com ênfase na geografia afetiva e simbólica de Minas Gerais. Fraga operou a moda como um mapeamento sensorial, traduzindo conceitos geográficos e emocionais complexos em elementos visuais.
A cartela de cores foi uma tradução cromática da paisagem e da música de Milton: tons terrosos (chão e rusticidade), metálicos e dourados (riqueza mineral e celestial) e azuis profundos (interioridade e transcendência).

O uso da imagem do mar de morros de Minas, recriado cenograficamente, reforçou o conceito de que a moda veste a geografia, e a geografia veste a música. Fraga se posiciona, assim, como um narrador visual da paisagem interiorana.
O Encontro de Dois Mestres
Ronaldo Fraga utilizou a moda como cronologia biográfica, construindo um arquivo de peças que pontuam as décadas e fases da vida de Milton Nascimento.
A trajetória do músico foi costurada em referências estilísticas diretas:
- Alfaiataria burlesca: inspirada nos bares dos anos 1950.
- Jeans contemporâneo: representando a virada dos anos 1960 para os 1970.
A justaposição entre o bar e os paramentos religiosos criou uma tensão dramática, Milton como figura que transita entre o poético e o profano.
Um Santuário Narrativo
Realizado no Museu da Língua Portuguesa, o desfile reforçou o propósito de transformar a moda em narrativa cultural. Ao sediar o evento em um templo da palavra, Fraga sugeriu que suas roupas são textos, dotadas da mesma densidade semiótica que a poesia e as letras de Milton Nascimento.
Letras bordadas e versos integravam as peças, transformando o desfile em uma intervenção artística dentro de um espaço cultural.

A Estrutura Performática: Da Infância Lúdica à Procissão
A passarela foi transformada em cortejo festivo e espiritual.
A abertura representou a infância de Milton:
- Um menino usava um manto inspirado na obra de Bispo do Rosário.
- Meninos negros vestiam asas de anjos de papelão.
- O chão desenhado com trilhos de trem remetia às viagens e ao pertencimento (temas centrais da obra de Milton).

Na sequência, adultos desfilavam em procissão com vestes religiosas, embalados por múltiplas versões de Ponta de Areia.
A trilha sonora, a ambientação e a performance criaram um ambiente de reverência e emoção.
Elementos Visuais-Chave: A Cenografia do Mar de Morros
Lâmpadas de LED nas cabeças dos modelos formavam o mar de morros de Minas, referência direta à capa do álbum Geraes (1976). Uma fita de LED desenhava montanhas no ar, enquanto projeções de letras e desenhos envolviam o público.
A tecnologia serviu ao simbólico: a fusão entre o arcaico e o contemporâneo, marca de Fraga e Milton.

Compromisso com o Artesanato de Raiz
A coleção foi construída sobre materiais que celebram o trabalho manual, princípio central da filosofia de Fraga e contraponto à produção acelerada da moda global.
Texturas e Paleta Cromática
Jeans cru e bordado, linho e tafetá compuseram um mosaico de texturas. O jeans (símbolo universal) foi elevado a artefato cultural pelo bordado.
A paleta terrosa, azul e dourada refletiu a harmonia entre o terrestre e o celestial, o popular e o erudito.
A Moda como Economia Criativa e Impacto Social
O diferencial da coleção está em sua sustentabilidade social. As rendas, crochês e bordados foram frutos de parcerias com artesãs de Minas Gerais, Goiás e Santa Catarina.

Fraga conecta moda de passarela à valorização de comunidades locais, tornando o processo criativo um instrumento de distribuição de renda e memória coletiva. As peças, ricamente carregadas com bordados de pássaros, notas musicais e versos, funcionam como repositórios de memória e eu diria, fragmentos da história compartilhada. Aline Canciani, Diretora de Fábricas de Cultura, destacou que essas parcerias são vitais para o desenvolvimento socioeconômico por meio da economia criativa. O impacto da coleção, portanto, reside no vínculo reforçado entre moda, cultura e comunidade.
Fraga Critica à “Sustentabilidade”
Fraga critica o uso superficial da palavra “sustentabilidade”, descrevendo o greenwashing como uma promessa vazia. Sua proposta é ética e transparente: valorizar o tempo humano, a técnica manual e o ciclo real de produção. Sua sustentabilidade é social, não de marketing.
Fraga aponta que a indústria da moda é a que mais polui no mundo, e que a simples inclusão de pequenas coleções com malhas sustentáveis é frequentemente desprovida de propósito, visto que a maioria dos materiais é química e demorará muito tempo para se decompor. O estilista destaca que a principal barreira para a implementação de medidas sustentáveis mais profundas (como o uso de poliamida com decomposição mais rápida) é preço, pois este encarece a peça em R$ 10 ou R$ 20 numa indústria que luta incessantemente por custos baixos na produção acelerada asiática.

Silhuetas e a Narrativa do Vestir
A silhueta principal empregada foi o estilo trapézio, um formato recorrente na obra de Ronaldo Fraga. As túnicas serviram como uma base essencial, descritas poeticamente como um caderno de desenho ou livro de colorir. Algumas túnicas foram estruturadas com mangas bufantes e um sistema interno que permitia marcar a cintura.
A escolha de uma silhueta ampla e clássica, como o trapézio e a túnica, é propositalmente desestruturada. Essa forma oferece uma grande superfície de tecido, tornando-a ideal para receber os extensos bordados e aplicações narrativas (patches, medalhas de santinhos).
Detalhes Narrativos
Os detalhes são micro-histórias visuais:
- Vestido “Caçador de mim” — faz referência à canção de 1981, apresentava duas figuras se olhando..
- Longo de tule “Maria, Maria” — É o ponto alto da coleção, um longo tule com mangas bufantes que carrega a letra da faixa “Maria, Maria” (1978) escrita e bordada.
- Crochês franjados — Crochês franjados foram habilmente utilizados para reproduzir o formato dos cabelos dreadlocks de Milton. Sendo assim uma homenagem direta à identidade visual do cantor.
- Renda Richelieu azul sobre paetês — Nada mais do que uma técnica de bordado vazado, que foi aplicada com sua trama aberta sobre um forro de paetês da mesma cor, criando o efeito visual de uma noite estrelada.
Conclusão
A apresentação reafirmou Ronaldo Fraga como um dos principais narradores visuais do Brasil. Ele se posiciona como um criador que elabora um discurso complexo sobre o Brasil possível, amalgamando Moda, emoção e vida em peças que são simultaneamente artefatos culturais e instrumentos de engajamento social. O desfile foi universalmente descrito pela imprensa especializada como um evento de pura emoção, celebrando o talento do estilista e prestando uma homenagem única a Milton Nascimento.
O sucesso e a recepção positiva da coleção, carregada de significado cultural e emocional, demonstram que a moda pode e deve prescindir das tendências globais que as fast fashion propagam, servindo assim para criar um impacto duradouro e não apenas momentâneo. O desfile de Fraga serve como um ponto de inflexão ou um modelo de resistência cultural dentro de um evento comercial de grande porte como SPFW.
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