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O Novo Testamento da Hermès

Grace Wales Bonner e a Reescrita da Elegância Masculina

I. A Passagem do Bastão

Em outubro de 2025, a Hermès anunciou que Grace Wales Bonner assumiria a direção criativa da linha masculina, encerrando o reinado de Véronique Nichanian, que durou trinta e sete anos, a gestão mais longa da história da moda contemporânea. O fato ultrapassa o campo das trocas de comando. É simbólico: uma passagem de era dentro do próprio luxo.

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Véronique Nichanian – Ex diretora criativa da Hermès

De um lado, Nichanian, a arquiteta da estabilidade, responsável por construir um império multibilionário sobre a consistência e a discrição. Do outro, Wales Bonner, a designer-intelectual cuja prática conecta artesanato, identidade e diáspora em uma leitura espiritual e política da moda. Essa transição não representa ruptura, mas evolução: da perfeição silenciosa à consciência crítica.

A Hermès, ao chamá-la, não busca juventude, busca pensamento. E o resultado é o nascimento do que a Vértice chama de luxo erudito: um luxo que continua atemporal, mas agora também contextual.


II. O Legado de Véronique Nichanian

O Silêncio como Estratégia

Quando Jean-Louis Dumas convidou Véronique Nichanian para assumir a linha masculina em 1988, ele não estava contratando uma designer; estava estabelecendo um método. Durante quase quatro décadas, Nichanian construiu o mais improvável dos legados em uma indústria obcecada por novidade: o luxo da constância.

Seu trabalho consolidou a Hermès como um símbolo de equilíbrio, o ponto em que a forma não grita, mas sussurra excelência. A sua filosofia pode ser resumida em três pilares:

  • Artesanato como linguagem. Nichanian falava tecido como quem fala francês fluente, natural, e sem esforço. Cada coleção partia da materialidade: linho técnico, seda lavada, couro tratado como papel.
  • Sensualidade contida. Suas peças tinham corpo, mas sem vaidade. O homem Hermès era elegante, mas nunca performático.
  • Aversão ao espetáculo. Enquanto o resto da indústria buscava viralidade, Nichanian defendia o silêncio. Sua moda era sobre o prazer privado, não o aplauso público.

Esse “silêncio” se provou revolucionário. Nichanian criou um homem que não precisava provar poder; apenas o encarnava.

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A Hermès masculina, sob sua direção, resistiu à crise de identidade que atingiu praticamente todas as casas de luxo nas últimas décadas. Cresceu enquanto o mercado caía. O segredo? A ausência de pressa. Nichanian construiu algo raro: um modelo de luxo imune ao tempo e ao algoritmo.


III. Grace Wales Bonner

A Intelectualidade como Matéria

Se Nichanian lapidou o silêncio, Wales Bonner o transforma em discurso. Sua chegada representa o encontro entre o luxo artesanal e o pensamento decolonial, uma costura entre tradição e teoria crítica.

Nascida em Londres, filha de mãe inglesa e pai jamaicano, Grace carrega em sua trajetória uma síntese entre alfaiataria e herança afro-atlântica. Desde sua formação na Central Saint Martins, sua prática é marcada por pesquisa, espiritualidade e cultura. Sua dissertação Black on Black já antecipava o que se tornaria sua assinatura: usar a moda como ensaio sobre o corpo e a história.

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Wales Bonner se consolidou com coleções que traduzem o intelectual em estética:

  • Alfaiatarias estruturadas com tecidos etéreos.
  • Cores que carregam memória.
  • E uma narrativa que transforma a roupa em arquivo vivo.

Sua colaboração com a Adidas provou que conceito e comercialidade podem coexistir. O Samba de Wales Bonner virou símbolo de uma geração: culto, cultural e cobiçado.

Ela não cria para o “hype”, mas o hype a segue.


IV. Luxo Erudito

A Nova Gramática Hermès

O termo pode soar acadêmico, mas descreve com precisão o momento: a Hermès, com Wales Bonner, entra na era do luxo com consciência cultural.

O que antes era definido pela matéria, pelo toque, o corte, o brilho, agora também é definido pela narrativa. A Hermès continuará sendo a guardiã do gesto artesanal, mas sob Wales Bonner, cada ponto da costura ganha contexto: o diálogo entre o corpo e a história, entre o savoir-faire e o saber simbólico.

Ela não virá para destruir o legado de Nichanian. Ela o traduzirá para o presente, expandindo o significado de “herança” além da herança europeia.

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“O luxo do futuro não será o que se vê, mas o que se entende.” — Vértice

Essa é a lição silenciosa por trás do anúncio. A Hermès não está se modernizando, está se intelectualizando.


V. O Futuro do Homem Hermès

Da Alfaiataria ao Corpo Pensante

Sob Wales Bonner, o homem Hermès deve abandonar a rigidez. A alfaiataria tende a se tornar mais fluida, os tecidos mais leves, as cores mais densas. A sedução da Hermès deixará de ser a da posse, será a do entendimento.

É o fim da figura do homem inatingível, e o início do homem interpretável. Menos uniforme, mais individual. Menos imagem, mais ideia.

Essa é a evolução que Wales Bonner simboliza: da moda como forma para a moda como linguagem.


VI. Conclusão

Quando o Luxo Aprende a Pensar

A nomeação de Grace Wales Bonner é mais que uma conquista pessoal; é um ponto de virada na história da moda. Pela primeira vez, uma mulher negra lidera o design masculino de uma das casas mais tradicionais do mundo, e o faz sem pedir licença, apenas competência.

O gesto da Hermès é claro: o futuro do luxo será intelectual, diverso e culturalmente consciente, ou não será.

A casa que nasceu na sela, e se consagrou no couro, agora se move pelo pensamento. E isso muda tudo.


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